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Na Bahia do cacau e da capoeira, Amado e Caymmi, não se imaginava, há pouco tempo, uma roda de negros rodeados de brancos dançando na ‘boquinha da garrafa’ sob o sol do farol da Barra. Pois é, foi-se a tropicália e Mãe Menininha com as velhas sambistas da Irmandade da Boa Morte. Ainda restam os Terreiros de Candomblés, o Ylê Axe Opô Afonja, Casa Branca, Gantois e Oxumaré...
Tem a Irmandade do Rosário dos Pretos na Igreja de mesmo nome no Pelourinho. Foram-se Amado, Gilberto e Carybé (Hector Julio Páride Bernabó, nascido argentino e morto baiano em 97). Temos ainda vivo Dorival Caymmi (soteropolitano de 1914) reverenciado cantor, compositor e pintor. Ainda há tempo e esperança. Temos os blocos afros Ylê Aiyê, Filhos de Gandhi, Olodum e o Terreiro de Candomblé Bate Folha.
Mas vejam no que deu: axé music na cabeça! A Carla Perez aparece, sempre que pedem, mostrando os traseiros – desde aquela foto pelada que fez com um homem, que apareceu pela primeira e única vez numa capa de Play Boy. O homem na foto inédita e única da história da revista é o Papai Noel jundiaiense Toninho Santinato.
A coisa ‘tá branca’ na Jamaica do reggae e de ritmos como ska, rocksteady e ragga. Na terra do velho Bob Marley, filho Ziggy e nora americana Laurin Hill. No porto livre de Montego Bay, onde vi o Festival Reggae Sunsplash e ouvi o albino Yellowman ser chamado de negro. Também não se cogitava, há pouco, roda de negros e brancos, seminus, dançando ‘reggaetone’, um tipo de ‘na boquinha da garrafa’ deles. Pois é, não existe mais o rastafari Marley da seita que proclamou Haile Selassie, falecido imperador negro da Etiópia, como Jah (Deus reencarnado).
Ainda perdura na Jamaica a frase ‘no problem’, sem problema. Muitos seguem as idéias de paz e de orgulho da raça; outros aderiram ao Islamismo e alguns seguem o Selassie. Alguns preferem as pistas de atletismo e medalhas de ouro entre os mais rápidos do mundo. Tem o Jimmy Cliff, que em 93 regravou ‘I Can See Clearly Now’ para o filme ‘Jamaica Abaixo de Zero’. Por sua dedicação ao islamismo, rastas radicais chegaram a cuspir em sua cara. Cliff, magoado, mudou-se para a Inglaterra.
Havia o Peter Tosh, cantor vindo da favela de Trenchtown e outros heróis do povo afro que abandonou as lavouras de algodão dos Estados Unidos para formar uma pátria livre na ilha. Hoje, os jamaicanos assistem à ascensão do hedonismo. A Jamaica está se tornando o lugar do prazer total, onde o luxo de hotéis caros se junta ao sexo bem baratinho. Como havia em Cuba, com seus cassinos e boates lotadas de burgueses hedonistas e milionários de todo o mundo antes da ‘revolucción’.
Hedonismo vem do grego hedoné, que significa prazer. Doutrina que considera o único bem possível o prazer individual e imediato. Os únicos resorts onde a prática do hedonismo é aberta e encorajada ficam na Jamaica. O Hedonism II e Hedonism III são da rede internacional do sistema "tudo incluso". Salões, piscinas, jardins e quartos podem ser ambientes de prazer para casais, gays ou grupos.
Mas aqueles que estão envolvidos no hedonismo, e dançam eroticamente o ‘reggaetone’, têm os cabelos alisados e se entregam por poucas moedas. Procure por hedonismo na Internet e você encontrará a Jamaica, parecida com a Bahia do turismo sexual, dançando na ‘boquinha da garrafa’.
Que pena! Velho Marley com seus longos cabelos enrolados rasta deve estar se remexendo na tumba. Ele que cantou o orgulho de seu povo, a paz e a crítica social, ao som de ‘não se preocupe, as coisas irão melhorar...’. Talvez não imaginou que seus iguais, levados pela globalização, pelo dinheiro ou pela cannabis (*), poderiam dançar nus na fumaça azul do THC (*), ao som do tintilhar de moedas estrangeiras e de taças de álcool dos turistas...
Glossário
Cannabis sativa (maconha), subespécie indica, produz uma resina que contém compostos psicoactivos. Tem mais de 400 compostos químicos; cerca de 60 são canabinóides. Destes, o mais importante e também o mais abundante é o tetrahidrocanabinol (THC).
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